
Março, o mês dos aumentos de ordenado na empresa onde trabalho, o mês mais esperado depois de julho-agosto, claro.
Este ano a empresa teve uma facturação boa, assim como tem vindo a ter ao longo dos seus cem anos de existência. Mas devido a implementação de um novo sistema informático, tem de se cortar alguns custos. Para serem justos, optaram por aumentar todos os empregados (incluindo direcção e comercial) na mesma percentagem, ou seja 2,5%. Ora um dos argumentos da empresa foi: é acima da inflação deste ano que está prevista para 2,1%. Ok, tudo bem, à partida pensaria, olha que bom, pelo menos sou aumentada. Depois comecei a pensar: mas porque é que que comparam à inflação? Na realidade, para quem tem um baixo ordenado, 2,5% não significa práticamente nada: um ordenado de 1.000 Eur passa a 1.025 Eur. Claro que a direcção que tem um ordenado acima de 5.000 Eur já não tem muito que se queixar. Agora para as pessoas que recebem menos de 1.000 Eur ficam exactamente na mesma, não conseguindo acompanhar os aumentos que tudo vem a sofrer ao longo do ano. A Euribor teima em subir, os transportes públicos têm sempre novos preços, o gasóleo nem se fala... Enfim, a empresa onde trabalho é a maior quando se trata de pintar o mundo de cor de rosa.
Analisando melhor a situação: temos de cortar custos mas para organizar jantares de Natal num hotel de 5 estrelas em Sesimbra com direito a estadia e tudo (só para alguns claro) já há dinheiro com fartura? Anualmente nos apresentam a facturação e resultados em que tudo está sempre acima dos objectivos, durante 11 meses por ano a empresa está boa e recomenda-se mas chegamos a Março e estamos em crise e temos de poupar?
Uma pessoa produtiva é uma pessoa que se sente bem no seu local de trabalho e que vive satisfeita com o seu rendimento. A nós, só nos falam de um aumento: aumento de trabalho! Este ano nem podemos tirar férias quando queremos, vamos ter de nos adaptar a um novo sistema de trabalho, tentam impedir-nos de receber prémio de produtividade sempre que a ocasião se apresenta e ainda querem qualidade! Cada vez exigem mais das pessoas. Cada vez mais nos tornamos máquinas. Mas todos têm as suas necessidades e uma delas é o dinheiro que levamos para casa.
Pode parecer que me estou a queixar, mas na verdade até estou contente por ter sido aumentada. Apesar de não fazer grande diferença no meu orçamento, é melhor que nada. Mas o que me irrita mesmo muito muito muito, é atirarem-me areia para os olhos, como se eu fosse ignorante ao ponto de achar que esta decisão é justa para todos, por ser igual para todos e acima da inflação...